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Tarefas que poderiam ser discutidas para eventual aplicação imediata.
A. Situação interna no partido
1. Acelerar/ampliar a formação do Coletivo de Negros e Negras do
P-SOL, procurando atrair militantes que já tenham atuação nas
estruturas do partido;
2. Levantamento do número de negros e negras no partido;
3. Produção regular de material sobre a questão negra nas páginas de
internet do P-SOL, com um ‘link’ especial também nos ‘sites’ teóricos
do partido;
4. Estimular na militância e nos contatos com intelectuais a participação de negros no partido;
5. Abrir um diálogo com o movimento negro radical.
B. Situação atual do movimento negro
1. Movimentos negros políticos independentes:
a. MNU
i. Surge de um grupo trotskista em 1978 e da militância de nomes históricos como Clóvis Moura e Abdias do Nascimento;
ii. Maior movimento em escala nacional;
iii. Tendência principal atual: PT;
iv. Objetivo: lutar contra práticas discriminatórias da polícia e
racismo no mercado de trabalho; implementação de políticas de ação
afirmativa e de cotas.
b. Ilê Ayiê (BA)
i. Movimento político e cultural.
c. Núcleo de consciência negra (SP)
i. tendência política mais radical;
ii. objetivo: educação de negros pobres, e formação de lideranças negras.
d. Movimentos de mulheres negras: Fala Preta!, Criola, Geledès.
e. CEAP (Centro de Articulação de Populações Marginalizadas): luta contra a discriminação racial (RJ).
f. Quilombolas: luta pela propriedade das terras das comunidades
remanescentes de quilombos. No Estado de São Paulo é próximo ao PT.
g. Poder para o povo preto (PPP): radical, apartidário, forte no movimento hip-hop de São Paulo e Rio de Janeiro.
2. Núcleos negros partidários: PT, PDT, PCdoB, PSTU, PCO.
3. CUT: produz regularmente material sobre a discriminação no mercado de trabalho.
4. Negros em organizações políticas de direita
a. FHC procurou cooptar setores do movimento negro com a promessa de
discutir políticas públicas contra a discriminação. Ainda hoje é
próximo de alguns intelectuais negros;
b. O PSDB (SP) tem procurado atrair intelectuais negros para o
partido (exemplo é a recente participação em secretarias nos governos
da capital paulista e no governo do Estado). O site do partido informa
sobre suposta elaboração de políticas para negros.
C. Proposta de análise da questão negra no país para o partido
1. A questão negra deve ser colocada como um elemento central: a
explicação do processo de acumulação de capital no Brasil passa
invariavelmente por uma análise do problema racial; e, portanto, sua
superação passa também pela luta anti-racista;
2. Racismo é inerente ao capitalismo. Mas deve ser reconhecido que a
opressão racial se soma à opressão de classe, afetando duplamente a
população afro-brasileira;
3. Deve ser evidenciado que os negros são as principais vítimas do
desemprego, da violência, do trabalho precário, da marginalidade, do
sucateamento da saúde e da educação públicas. Os negros sofrem,
portanto, de forma mais aguda com a aplicação do modelo neoliberal de
acumulação colocado em prática inicialmente pelos militares em 1964, e
acelerado a partir da abertura comercial nos anos 90;
4. A dominação racial se manifesta materialmente pela pobreza negra,
pelas desigualdades raciais na economia, na educação e na política
brasileiras. Porém, ela é indissociável de seu caráter ideológico,
cujos principais aspectos são a sobrevivência do mito da democracia
racial (travestido atualmente de “multiculturalismo”), e da idéia de
igualdade de chances. É necessário destruir este discurso, que
representa a visão burguesa, neoliberal e individualista da questão, e
que pretende separar da questão negra seu elemento político – a luta de
classes;
5. O problema racial é grave no país e exige a adoção de medidas de
curto prazo, ainda que reformistas. Portanto, é indispensável que o
partido trabalhe no Congresso Nacional e atue junto à sociedade civil
no sentido da aprovação do Estatuto da Igualdade Racial. O Estatuto é
um projeto de lei apresentado pelo Sen. Paulo Paim (PT) em 1998, e foi
construído a partir de reivindicações históricas do movimento negro. Se
aprovado e colocado em prática pode representar o passo mais importante
na luta anti-racista no país em toda a história republicana. O Estatuto
comporta, entre outras medidas:
a. a introdução de cotas para a população afro-brasileira no mercado
de trabalho, na mídia, na educação (mínimo de 20%, e de acordo com a
representatividade racial de cada estabelecimento, estado, região);
b. punição para os estabelecimentos que não remunerem de forma
equivalente brancos e negros exercendo uma mesma função no mercado de
trabalho;
c. punição para os estabelecimentos que não justifiquem a demissão desproporcional de negros em relação a brancos.
São medidas inspiradas nas leis de ação afirmativa adotadas há 40
anos nos EUA, como resultado das lutas do movimento negro naquele país.
Os resultados comprovam que houve uma melhora relativa para os negros
estadunidenses.
O Estatuto está atualmente em discussão em uma comissão especial no
Senado. Deve ser encaminhado para votação até novembro de 2005. Antes
de que se façam eventuais críticas à sua aplicação e às falhas
existentes nos mecanismos de punição aos que não apliquem as cotas, é
preciso pedir sua votação imediata e aprovação sem emendas que
desfigurem o projeto inicial.
D. Elaboração de uma leitura crítica do posicionamento dos marxistas no Brasil diante da questão negra
1. Diversos elementos do movimento negro se queixam (com razão) da falta
de implicação, ou da implicação pouco aprofundada, das esquerdas
marxistas no Brasil diante da questão negra;
2. O partido precisa adotar um posicionamento crítico com relação à
herança contraditória que representa a análise marxista do racismo no
Brasil;
3. É fundamental, portanto, que, a partir desta crítica, o partido
aponte as falhas do passado, distanciando-se das análises mecânicas que
predominaram no país;
4. Uma boa oportunidade pode ser a promoção de debates com o
movimento negro para discutir a questão da pertinência de uma abordagem
(neo) marxista para tratar a questão racial.
E. O movimento negro diante da crise política atual
1. Como foi dito anteriormente, boa parte do movimento negro é próxima
ao PT e mantém boa relação com os congressistas daquele partido;
2. Todo cuidado é pouco, portanto, no momento de apresentar a crítica ao atual governo;
3. É necessário desvincular a crítica aos escândalos atuais e à
conduta da política econômica (com evidentes objetivos de continuidade
com relação ao projeto neoliberal, e portanto prejudicial para a
população negra), da política específica para os negros colocada em
prática pelo governo federal, fruto de reivindicações históricas do
movimento;
4. A crise política atual deve estar causando preocupação e
descontentamento igualmente no movimento negro. O P-SOL pode aproveitar
esta situação para mostrar que apóia incondicionalmente o Estatuto da
Igualdade Racial, e que, no futuro, ajudará a lutar pela sua
implementação e aperfeiçoamento por meio de uma política própria a ser
desenvolvida pelo partido com a colaboração do movimento negro.
Pedro Chadarevian é doutorando na Universidade de Paris em
"Economia do Racismo", e ligado ao núcleo do P-SOL em Genebra, Suíça.
Contato:
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