A Revolução no espelho PDF Imprimir E-mail
Escrito por Hugo Scotte   
Ter, 30 de Outubro de 2007 00:00

A idéia que se tem de Vladimir Ilich Lênin, em geral, é a de um homem “obcecado pela revolução”, que só tinha em mente “a política” e a “construção do partido”, que era um “militante de fração”. Estes aspectos de sua personalidade são verdadeiros. Mas, muitas vezes, se esquece que, como Marx, Engels, Rosa de Luxemburgo e outros revolucionários, Lênin viveu profundamente seu tempo, tentou compreendê-lo e incursionou não apenas na política, mas também na economia, história, ciência e até na arte militar. Em sua “obsessão” de que as massas russas despertassem para a revolução e o socialismo, viveu uma guerra permanente também no campo ideológico. E a cultura, a interpretação das manifestações culturais, fez parte desse combate.Em setembro de 1908, três anos após a derrotada Revolução de 1905, escreveu um artigo intitulado “Leon Tolstoi, espelho da Revolução Russa”, para o jornal Proletário(1).

“Identificar o nome deste grande escritor à revolução, que evidentemente não conseguiu compreender e da qual com certeza esteve afastado, pode parecer à primeira vista estranho e superficial. No entanto, é verdade que algo que não reflete exatamente, de forma evidente, os fenômenos, não pode ser chamado de espelho. Mas nossa revolução é um fenômeno extraordinariamente complexo. Entre a massa de seus agentes e participantes diretos, existem muitos elementos sociais que tampouco conseguiram compreender o que acontecia e que também abandonaram as tarefas históricas que o curso dos acontecimentos lhes apresentava. E um escritor verdadeiramente grande não podia deixar de refletir ao menos sobre alguns aspectos essenciais da revolução.”

O trabalho foi publicado quando toda a “imprensa legal” – leia-se liberal, burguesa – exaltava a grandeza do escritor como “reflexo da alma russa”, assumindo o aspecto mais retrógrado do proprietário rural, autor de obras imortais como Guerra e Paz e Ana Karenina, e convertendo-o numa hipócrita ideologia moralista.

Nas páginas do Proletário, um jornal de pequena circulação, Lênin enfrenta essa – como chamaríamos hoje em dia – “campanha de propaganda” – e analisa as raízes profundas da obra de Tolstoi: “Qual é a causa das contradições flagrantes do ‘tolstoianismo’?”, “Que diferenças e fraquezas de nossa revolução refletem?” (...)

“Por um lado, temos o genial escritor que não só consegue traçar um quadro incomparável da vida russa, mas também produzir uma literatura universal de primeira linha. Por outro, temos o proprietário rural, carregando a coroa de mártir em nome de Cristo.”

O quadro da vida russa traçado por Tolstoi é o da exploração capitalista, da violência do Estado, da falsa justiça, da burocracia governamental corrupta, da civilização moderna implantada ao preço de muita miséria, dos sofrimentos da classe trabalhadora e das massas camponesas, que mal saem da servidão e já sofrem a tirania do mercado capitalista.

A profunda sensibilidade do escritor retratava o sofrimento das massas, a morte da aldeia patriarcal, saqueada e violentada pelo capital e pelo Estado, a miséria nas cidades, onde os ex-servos se transformam em proletários ou desocupados. Não entendia – não podia entender – a importância do proletariado como classe revolucionária.

A “utopia” tolstoiana, da qual com tanta avidez se apropriaram os liberais burgueses e a intelectualidade pequeno-burguesa, propunha um “socialismo” cristão e não violento, baseado na pequena propriedade camponesa, uma comunidade agrária de características exclusivamente russas.

“O esforço para acabar com a Igreja e o Estado, os latifundiários e o governo federal; para destruir todas as velhas formas e sistemas da grande propriedade rural; para expurgar o país, para criar em lugar do governo de classe policialesco, uma comunidade igualitária e livre de pequenos camponeses, passa como um fio através de cada passo histórico dado pelos camponeses em nossa revolução; e, sem dúvida, o conteúdo ideológico dos textos de Tolstoi corresponde bem mais a esta luta dos camponeses que o abstrato ‘anarquismo cristão’ que se pretendeu depreender como um ‘sistema’ do conglomerado de seus conceitos. (...)”

O ódio camponês aos grandes proprietários rurais e aos funcionários do governo, acumulado ao longo de séculos, não bastou para que as massas rurais encontrassem seu caminho na revolução. Apenas uma minoria lutou junto ao proletariado.

“E, como acontece sempre nestes casos, a abstenção tolstoiana da política e a abjuração tolstoiana dos políticos tiveram por resultado que só uma minoria se aliasse ao proletariado consciente e revolucionário, enquanto a maioria ficava refém dos intelectuais burgueses sem princípios e servis...” (...)

“As idéias tolstoianas são um reflexo das fraquezas e deficiências de nosso levante camponês, um reflexo da frouxidão da aldeia patriarcal e da inata covardia do ‘mujik (2) frugal’.”

Entre 1905 e 1906 irromperam motins no exército (de maioria camponesa) e na marinha (maior parte de origem operária). Os soldados e marinheiros representavam uma posição social intermediária entre o campesinato e o proletariado... e estavam armados.

“Mais uma vez, no exército a iniciativa estava nas mãos das massas de soldados, mas na prática não havia o uso decisivo desse poder. Os soldados vacilavam. Após alguns dias – por vezes, horas -, após fuzilar um comandante odiado, libertavam os demais, negociavam com as autoridades e marchavam em silêncio rumo à execução ou, dobrando o corpo sob o chicote, se ungiam ainda mais no jugo, totalmente dentro do espírito de Leon Nicolaievich Tolstoi!”

Ódio de classe, esperança... Mas também passividade, resignação, ignorância, inexperiência política, apoliticismo, são esses os reflexos da revolução – segundo Lênin – no espelho tolstoiano. A fraqueza numérica da classe operária e a passividade camponesa foram as causas fundamentais da derrota da Revolução Russa de 1905.

“Mas os primeiros anos da revolução e as primeiras derrotas na luta de massas revolucionária, sem dúvida conseguiram algo. Assentaram o golpe mortal na brandura e frouxidão que existia nas massas. As linhas de demarcação se acentuaram. Foram estabelecidas fronteiras entre os partidos e as classes. Sob o martelo educador de Stolypin (3) desenvolveram-se inevitavelmente, através da inflexível e conseqüente agitação dos social-democratas revolucionários, não só no seio do proletariado socialista, mas também dentre as massas democráticas dos camponeses, lutadores cada vez mais preparados, dispostos cada vez menos a cair no pecado histórico do tolstoianismo.”

A análise que Lênin faz da obra de Tolstoi nos leva a refletir sobre nossos dias, onde o papel e a influência dos meios de comunicação de massas são tão avassaladores que qualquer obra de arte – ou peça de comunicação – não só reflete uma realidade, em geral distorcida, mas também induz a determinado comportamento. Assim, pode-se encontrar aí elementos chaves para interpretar essa realidade. E a interpretação, possível e necessária do ponto de vista revolucionário, nunca é passiva. Da mesma forma que “a teoria é um guia para a ação” (Lênin), a adequada interpretação das manifestações culturais é imprescindível para entender o nosso tempo e tirar as conclusões necessárias também à prática política. Se os revolucionários não o fizerem, certamente a burguesia o fará, intoxicando as massas com sua falsa consciência. O papel dos socialistas é ajudar os trabalhadores e o povo a ver com seus próprios olhos, tirar suas conclusões e agir em conseqüência.

[1] Leon Nikoláievich Tolstói

[2] (9 de setembro de 1828 - 20 de novembro de 1910) foi um escritor russo muito influente na literatura e política de seu país.

[3] Junto a Fiódor Dostoiévski, Tolstói foi um dos grandes da literatura russa do século XIX. Suas obras mais famosas são Guerra e Paz e Anna Karenina.

[4] Membro da nobreza, entre 1852 e 1856 realizou três obras autobiográficas: Meninice, Adolescência e Juventude.

[5] Tolstói serviu no exército durante as guerras do Cáucaso e durante a Guerra da Crimeia como tenente. Esta experiência lhe converteu em pacifista e pregava um humanismo cristão.

[6] Como representante da literatura realista, tentou refletir fielmente a sociedade em que vivia. Vítima de pneumonia morreu miseravelmente numa estação de ferro, em 1910.

Comentários
Adicionar novo Busca
Comentar
Nome:
E-mail:
 
Website:
Título:
 
Por favor coloque o código anti-spam que você lê na imagem.

3.26 Copyright (C) 2008 Compojoom.com / Copyright (C) 2007 Alain Georgette / Copyright (C) 2006 Frantisek Hliva. All rights reserved."