| Bate-Papo - Sobre idéias e caminhos |
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| Escrito por Milton Temer, Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder, Roberto Robaina e Afrânio Boppré | |||||||||
| Sáb, 29 de Setembro de 2007 22:51 | |||||||||
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Milton Temer, Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder são amigos há quase meio século. Em 1964, os três eram militantes do Partido Comunista Brasileiro e foram forçados a mudar de vida: o estudante Carlos Nelson, de apenas 17 anos, teve que sair da Bahia para não ser preso e foi para o Rio de Janeiro. Temer, que era oficial de Marinha, foi preso e virou jornalista. Leandro, advogado sindical, tornou-se editor cultural do semanário Folha da Semana. Em poucos anos, a repressão piorou muito, a ditadura tratou de cercear o exercício das liberdades democráticas. Os anos 70 foram marcados pela mais desenfreada repressão. E os amigos partiram para o exílio. Carlos Nelson ficou em Bolonha, na Itália; Leandro em Bonn, na Alemanha; e Temer em Paris. Mas sempre se encontravam. Com o apoio de Armênio Guedes, editavam o jornal clandestino do PCB, o Voz Operária. Também participavam de uma assessoria do Comitê Central do partido. Pouco antes da anistia, voltaram para o Brasil. Queriam mostrar aos dirigentes do PCB que, embora conduzido de cima para baixo, o processo de desgaste da ditadura cedia à pressão de massas. Logo perceberam que não havia espaço para eles no PCB. Ingressaram no PT, nos anos oitenta, na expectativa de atuarem num partido moderno, com uma nítida identidade de esquerda e um compromisso sério com o socialismo. A decepção com o PT foi dolorosa, mesmo que tenha sido preparada pela desilusão com o PCB. Quando o PSOL entrou na arena política, os três amigos estavam lá, no ato mesmo da fundação. Guiados por princípios que compartilham, amadurecidos por quase meio século de lutas políticas, Carlos Nelson, Leandro e Temer fizeram a bela campanha presidencial da companheira Heloísa Helena. Na noite de 5 de agosto, Afrânio Boppré e Roberto Robaina se juntaram aos três, no apartamento de Temer e Rosane, no Rio de Janeiro. Foram quatro horas de conversa. Aqui vai uma parte dela: Robaina: Como vocês percebem a situação política e sua dinâmica, a situação da esquerda e suas perspectivas? Konder: A situação está ruim, com poucas perspectivas. Mas temos uma perspectiva no PSOL. Uma das coisas que vejo, sua importância, é que está quebrando o clima que há entre a ideologia dominante, e abre uma perspectiva. Mas as dificuldades são tão grandes que temos que pensar sempre a médio ou longo prazo. Além disso, hoje temos que pensar em iniciativas táticas. Neste sentido acho positiva a política com peso na denúncia da corrupção. Robaina: Quando vocês começaram essa jornada, quando o PSOL começou, imaginaram que no futuro imediato o PSOL teria a força que tem? Acho que o crescimento do PSOL surpreendeu os analistas políticos da burguesia e os políticos em geral. Ou seja, aconteceu o que Leandro disse, isto é, o PSOL conseguiu quebrar essa idéia de que a situação vai ficar por isso mesmo, que está tudo resolvido; a política está condenada, o PT traiu e, portanto, a esquerda já não tem vez. O PSOL conseguiu dar uma quebrada. Concordo com Konder que a tática de combate à corrupção foi fundamental nesse sentido. Coutinho: Eu diria o seguinte: acho que nós vivemos em uma época de hegemonia neoliberal, a hegemonia naquele sentido de Gramsci, no sentido de que o senso comum hoje é marcadamente neoliberal. Isso se manifesta, no terreno da ação política, no absoluto predomínio do que Gramsci chamou de pequena política sobre a grande política. Gramsci dizia que a pequena política é aquela que rege a estrutura e mantém a ordem, administra o existente; a grande política coloca em discussão a ordem social, grandes questões alternativas da sociedade. Uma prova da hegemonia neoliberal é que a pequena política predomina. Lembro que o Gramsci dizia: “o predomínio da pequena política é a grande política”, no sentido em que há afirmação de uma hegemonia das mais conservadoras, manutenção do status quo. Veja bem, acho que esse predomínio da pequena política sempre se manifestou nos Estados Unidos, onde os dois partidos têm pouca diferença. Na Europa, já avança há algumas décadas: fim do partido comunista, conversão da social-democracia em partido da ordem. Demorou em se manifestar no Brasil. Nós todos aqui fomos, em dado momento, do PT. Sabemos que o PT representava uma alternativa ou, pelo menos, se dizia uma alternativa à ordem social. Lembro da campanha de 1989, por exemplo, onde já havia claramente uma disputa de projeto de sociedade entre a candidatura de Lula no segundo turno e a de Collor. A corrupção ideológica e política do PT vem já há algum tempo. Essa corrupção começa na mudança de projeto do PT, a burocratização do PT. Mas, com certeza a coisa se tornou explícita com a chegada do PT ao governo, quando evidentemente houve uma política de continuidade, ou seja, uma adoção clara da pequena política. O emblema maior, me parece, é a idéia de blindar a economia, ‘não vamos mexer na economia, isso é uma questão técnica’. Ou seja, a grande questão que decide o destino do país não é mais responsável diante do eleitorado, mas sim uma equipe técnica que decide. Acho que a grande novidade, ou melhor, diria que o grande mérito do PSOL é surgir precisamente numa tentativa de quebrar com a lógica da pequena política, de voltar a colocar grandes alternativas. A colocar claramente a questão do socialismo como um horizonte de luta, não necessariamente como algo a ser conquistada amanhã. A articulação entre uma tática realista e uma estratégia também realista, mas que vise mais o longo prazo, é um desafio que nós do PSOL temos que enfrentar. Embora o PSOL seja necessário no sentido em que quebra essa lógica da pequena política, não é fatal que se torne um grande partido político. Acho que cabe ao nosso trabalho, a nós do PSOL, seguramente fazermos e contribuirmos para isso Eu sempre brinco com isso: Marx não inventou o movimento operário; Marx em dado momento começou a pensar, refletir, criticar a filosofia hegeliana a partir dela mesma e deparou-se com a realidade do movimento operário na sua época. O grande problema na nossa época, digamos assim, a condição básica dessa hegemonia neoliberal, é o fato de o movimento operário, do movimento dos trabalhadores em geral, estar num profundo recuo no mundo inteiro. Acho que devemos estar atentos também ao fato de que nossa capacidade de crescermos e influenciarmos na política brasileira depende também de um renascimento do movimento social. Essa é uma diferença básica entre a fundação do PT e a fundação do PSOL; quer dizer, o PT surge num momento de ascensão do movimento social, o PT se tornou, em um dado momento, representante desse movimento social naquilo que ele tinha de mais avançado, e nós, infelizmente, surgimos numa época de refluxo do movimento social. Milton Temer: Eu começaria com uma pergunta, e na linha do samba, “e se não tivesse o amor? e se não tivesse o PSOL?” Se o PSOL não existisse, estariam dadas as condições para o que Carlos Nelson Coutinho classifica de a “americanalhização” definitiva do quadro partidário brasileiro: PT, PSDB, PFL e PMDB compondo em eventuais dobradinhas, sem distinção programática ou doutrinária, e disputando unicamente o botim das verbas públicas e dos cargos em comissão no aparelho do Estado. Vale lembrar também a importante participação de Heloísa Helena – o mais representativo símbolo externo do PSOL – na última campanha presidencial. É possível imaginar o que seria a campanha se Heloísa não tivesse se apresentado como expressão de uma política de esquerda transformadora, recuperando o que havia de autêntico na luta da esperança contra o medo, na saudosa campanha que levou o outrora líder sindical à condição de presidente da República? Não haveria o segundo turno, nem a conseqüente introdução do tema das privatizações, que ela impôs em suas propostas programáticas do primeiro turno. Não haveria um contraponto político à pasmaceira que a disputa Lula-Alckmin imporia ao debate sobre programa de governo. Não haveria, portanto, a abertura para a manutenção das denúncias contra as mazelas deste modelo econômico neoliberal, introduzido sob a batuta de Collor, ampliado sob o mandarinato FHC, e radicalizado pela traição de Lula. Mazelas que estão na raiz de toda essa vaga de caos administrativo e corrupção sistêmica que abala o País. Robaina: O PT nasce num ascenso operário, popular categórico, claríssimo. E o PSOL surge numa etapa de ascensão do neoliberalismo, de diminuição dos processos de greves e de auto-organizacão do movimento operário. Mas nós temos uma vantagem, que o PT está tentando liquidar. Quando o PT ganha as eleições em 2002, o fato do PT ganhar é uma novidade tão importante que faz que a sociedade discuta o metalúrgico presidente, um líder de partido que foi preso porque enfrentou a ditadura, que fez greves, um ex-guerrilheiro que é ministro... Tenho a impressão que a sociedade brasileira discutiu mais política naquele momento. E o PSOL nasceu nesse contexto, surgiu como uma negação do PT, mas também pegou a acumulação do PT. O desafio agora é como, num momento em que o PT está liquidando ou tentando liquidar a politização da sociedade, tentando acabar com o que ele mesmo construiu. Mas o PSOL necessita uma sociedade politizada. Então, a grande tarefa do PT e da classe dominante é despolitizar a sociedade, para que reste só a pequena política. Coutinho: Concordo. Temer: Uma questão importante era que o PT se apresentava, com razão, contra dois tipos de autoritarismo: o das ditaduras a o dos Estados burocratizados. Era um novo caminho para o socialismo. Um dos debates que se colocava era o de reforma ou revolução. Ruptura ou reforma. Quando Lula foi eleito, havia condições concretas para que Lula fizesse no Brasil mais do que Chávez fez na Venezuela, mais do que Morales está fazendo na Bolívia, mais do que Correa está fazendo no Equador. Lula tinha representação social para fazer isso. Teoria e prática Konder: O pântano universal encontra um quadro de exceção na América Latina de hoje. Me preocupa qual é o espaço ideal para a luta política. Onde encontrar os graus mais acelerados de avanço? Numa sociedade de capitalismo avançado ou numa sociedade de capitalismo atrasado? Para a construção de um partido é preciso teoria. Mas, acredito que a teoria revolucionária não vai ser salva por um conjunto de peritos; ela vai crescer a partir da experiência, não automaticamente. A gente só pode fortalecer a nossa consciência teórica revolucionária a partir da prática: essa prática é a prática dos movimentos sociais. Temer: Ou seja, grosseiramente, nem espontaneismo nem voluntarismo. Nem esperar que a coisa aconteça, nem achar que nós vamos criá-la. Afrânio: Então qual é o caminho? Coutinho: É uma combinação da luta pela reorganização do movimento social com a luta da pela organização partidária e pela interlocução permanente entre os dois. Temer: O que é luta pela reorganização do movimento social? Eu quero saber! Coutinho: A Conlutas, não é um fenômeno interessante? Brigar dentro da CUT se ainda for possível brigar, quando for possível brigar. Brigar dentro do MST não é importante? Brigar na classe média. Afrânio: Falem um pouco das classes sociais, da atualidade ou não da posição de Marx a este respeito. Coutinho: Veja bem, eu acho que continua válida a idéia de Marx que o sujeito revolucionário está no mundo do trabalho; quem é explorado pelo capital, quem produz mais-valia, a base material da atual sociedade está na classe trabalhadora. O que eu não tenho mais certeza é se a centralidade está na classe operária estrito censo, ou seja, nos operários fabris. Que Marx é um gênio é evidente. Marx tinha a idéia de que haveria uma tendência ao assalariamento da sociedade, coisa que efetivamente aconteceu; mas na cabeça de Marx, ia acontecer uma proletarização no sentido que a classe operária fabril seria a parcela majoritária do mundo do trabalho. Isso não aconteceu, pelo contrário. Claro que não estou absolutamente de acordo com a idéia do Gorender de que a classe operária é ontologicamente reformista, isso é uma bobagem. Mas também acho que ela não é ontologicamente revolucionária, ela é dependendo do contexto histórico. Afrânio: Eu queria ainda, dentro dessa idéia, perguntar o seguinte: nós não estamos vivendo a era em que a classe operária já vê a exploração? Portanto, não está mais oculta a relação de exploração. Não é a época da mais-valia consentida? Temer: Não sei se a classe operária vê que é explorada. Você coloca uma coisa que é muito importante, que é conseqüência do avanço tecnológico na mão do capitalismo, de tal forma que para uma parte dos trabalhadores estar empregado, em si, se constitui em um privilégio. Coutinho: A tal reestruturação produtiva foi um fator desagregador do movimento operário, destruiu certas formas de organização tradicional. Os sindicatos, por exemplo, nós temos que repensar a questão sindical, a maneira de organizar o trabalhador. Konder: Acho que o proletariado enxerga a mais-valia e se acostumou a ela. Acha que é normal, que não tem alternativa. Eu acho que o outro lado da discussão não foi superado: o homem comum não vê o movimento das pessoas, dos sujeitos da burguesia movendo as coisas, e continua sem saber o espetáculo da mercadoria. Sem dúvida, a alienação e o fetichismo cresceram no mundo moderno. Robaina: Marx não poderia prever que existiria a indústria do fetichismo. Quando Marx fez a definição de classe operária, ele pensava na classe operária industrial fabril. Ele não teve como prever que aumentaria o setor de serviços; aumentou o número dos trabalhadores assalariados; a pequena burguesia, tal como ele previu, de fato diminuiu muito. Esse debate da integração da classe operária é antigo. Lucien Goldman disse isso nos anos 60, ele sustentou que a classe operária estava integrada. Marcuse foi o campeão disso, e não nego que ele fosse um revolucionário. Se nós formos fazer o balanço da polêmica que ocorreu nos anos 60 e 70, vamos ver que os que discutiam a idéia de integração da classe operária no capitalismo se equivocaram. Mesmo nos textos em que Ernest Mandel - um dirigente revolucionário que corretamente nunca cedeu a esta idéia da integração-, sempre sustentando a oposição de interesses de classes, erra na sua obra monumental, o “Capitalismo Tardio”. Ele dizia nesse livro que na Europa o exército industrial de reserva tinha tendência a se estagnar, enquanto na realidade ele aumentou espetacularmente. Então, o que digo é que este debate de que a classe operária está se integrando parece cíclico. Robaina: Para fechar, comentem um pouco mais sobre Marx, sobre seu papel na formação de vocês. Konder: O que Marx tem de mais genial, a meu ver, é o Marx filósofo. Sua obra custou a ser conhecida, porque parte importante dos seus textos filosóficos foi conhecida depois de sua morte; inclusive Lênin e Rosa [de Luxemburgo] não tiveram acesso. Ele foi extremamente original; menos genial na política, porque ficou muito envolvido, muito preso a sua situação concreta, que tem a ver com uma situação que é do século XIX, não é a nossa. Não trabalhava com um partido de massas, não existia um partido de massas, sindicatos de massas; a política era feita por milhares, não por milhões. Tudo isso influenciava muito as coisas. Às vezes, ele tinha uma visão simplificada das contradições políticas, o que não atrapalha, não prejudica, mas também não nos ajuda. O que Marx escreveu sobre economia tem muita coisa genial, quando ele fala da contradição máxima, da economia capitalista, que tem uma maior produção da mais-valia. Tem o Marx historiador, que eu acho fantástico. O 18 Brumário é uma coisa linda, para ler prazerosamente... Enfim, me ajudou muito na vida. Acho que dos filósofos mortos, o meu interlocutor preferido, por assim dizer, é Marx. Robaina: Quais são seus autores marxistas preferidos? Konder: Derivados de Marx, tem Lukács, que é outro sujeito extraordinário, e paralelamente ao Lukács, tem Gramsci. Outro que é heterodoxo, mas muito fecundo, muito instigante, é Walter Benjamin. Uma figura fantástica! Mas, filosoficamente me parece meio confuso. Tem uma porção de gente, tem uma galeria de primeira. Então, neste sentido, tem marxistas da pesada. Coutinho: Em primeiro lugar, eu concordo com Leandro. Mas acho que Marx não era um filósofo, um historiador, um crítico da economia política, ele era um pensador do social, para usar um termo do nosso querido mestre Lukács, um ontólogo. Criou uma ontologia do ser social, e acho que indiscutivelmente há vários momentos da reflexão de Marx que foram superados, porque Marx morreu em 1883. Para seguir inclusive a fidelidade ao próprio método de Marx, a idéia de que tudo o que Marx disse é verdadeiro, é errada. O Lukács fez uma observação muito inteligente: “somos ortodoxamente marxistas quando se usa o método de Marx, não por não abandonar várias afirmações concretas de Marx”. Leandro chamou a atenção para uma coisa muito importante. Várias coisas que Marx disse ficaram superadas, não porque Marx disse coisas erradas, mas porque Marx inseriu a estrutura política e social da época dele, e isso mudou. Konder: Eu acho que Marx estava errado no que disse sobre Bolívar. Coutinho: Ah, não! Aí são erros, digamos, de detalhes. Porque quando ele diz, em dado momento, que o Estado é o comitê executivo da burguesia, ele estava dizendo uma coisa real. Mesmo onde havia regime liberal como na Inglaterra, ou semi-liberal como na França, o parlamento era eleito por voto censitário, votavam só os proprietários. Então era o comitê executivo da burguesia mesmo. Quando Lênin dizia, no início do século passado, na Rússia, que o Estado era isso, o Estado czarista era realmente isso. Agora mudou. Nesse sentido, Gramsci, no ponto de vista da teoria política, foi a grande renovação do marxismo. Acho que Lukács esclareceu alguns pressupostos filosóficos de Marx, da ontologia do ser social; e Gramsci, que também discutiu filosofia com brilho - alguns detalhes equivocadamente -, mas com brilho. É quem colocou o marxismo atual para pensar política para nossos tempos, para o século XX e, acho mesmo, que para o século XXI. Mas eu não queria esquecer uma figura, Lênin. Acho que Lênin foi um revolucionário fantástico, um revolucionário exitoso, porque ele fez uma revolução. Ele foi um brilhante teórico, a sua condição curta o impediu, por exemplo, de ver algumas transformações que ocorreram no Estado, algumas necessidades que se manifestaram nesta época pra repensar o conceito de revolução. Mas Lênin tem observações, sobretudo pra nós de países periféricos, extremamente importantes: o conceito de via prussiana, a própria idéia do Imperialismo. Acho que Lênin é um importante continuador do marxismo. E, até um pouco para agradar o Robaina, há Trotsky, que é um sujeito brilhante, que disse coisas muito inteligentes, já falamos do desenvolvimento desigual e combinado. Quanto à Escola de Frankfurt, eu teria um pouco de dúvidas. Tudo bem, todos são muito inteligentes, mas tem um pessimismo ontológico, não tem jeito. O Benjamin. Você [Leandro] gosta mais do Benjamin do que eu. Acho Benjamin um notável crítico literário e um filósofo confuso. Em teoria política, indiscutivelmente acho que é Gramsci; Lênin e depois Gramsci. Em economia tem muita gente. Hoje em dia eu diria até que está menos desenvolvida a crítica da economia política do capitalismo contemporâneo, e Mandel talvez tenha sido o último que tentou uma visão de conjunto. Afrânio: E Mészáros? Coutinho: Pessoalmente gosto muito de Mészáros. É uma figura ótima, um querido amigo e tal; agora, Para além do Capital não me convence. Acho que aquela idéia dele que o capital é uma coisa que transcende o capitalismo, ou seja, ele pensa o Leste Europeu subsumido à idéia do capital com relação sócio-metabólica, ou seja, faz do capital um monstro no Para além do Capital, uma coisa fortíssima, e depois recomenda para estratégia socialista coisas como a luta pelo feminismo, a luta pela ecologia... Acho que Para além do Capital é uma obra muito importante, confesso que gostei, mas eu não li todo; mas, realmente é um caleidoscópio, ele fala de tudo ali. Coutinho: Para terminar, insisto no seguinte: eu ainda sou um crente - a palavra é ruim, mas uso esta mesmo -, um crente na forma partido. Pois se fala muito no movimento dos movimentos, que o problema é o movimento, que o partido não tem mais atualidade num mundo contemporâneo, nas lutas sociais. Sou um defensor do partido, por que acho que o partido é um representante do ponto de vista universal. Os movimentos representam setores particulares da sociedade, e são extremamente importantes. O Movimento dos Sem Terra é fundamental, mas a sua palavra de ordem principal, ou seja: a terra, atinge apenas uma parte. Não é uma palavra de ordem para toda a sociedade. A belíssima luta das mulheres pela sua emancipação, pela conquista de direitos também não é uma luta de sociedade, porque nós não vamos ter uma sociedade só de mulheres. Então os movimentos sociais são movimentos parciais e cabe ao partido, e isso é uma grande idéia inclusive do Lênin, acho que é o momento verdadeiro da teoria de partido do Lênin. O partido político é aquele que universaliza as demandas particulares provenientes dos movimentos sindicais e sociais. Então, é nesse sentido que sou um crente na necessidade e na atualidade do partido político. Eu entrei no PSOL com muito prazer, muita convicção e esperança. Porque não podemos imaginar que apenas como independentes ou como intelectuais teremos um papel muito ativo. Certamente, muitos intelectuais não aderiram ao PSOL e continuam na batalha e na luta pelo socialismo. Mas acho muito importante reconstruir um partido efetivamente de esquerda e efetivamente transformador no Brasil. E faço fé que o PSOL seja este Partido.
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