"A carne mais barata do mercado é a carne negra" PDF Imprimir E-mail
Escrito por Marcelo Freixo   
Sáb, 29 de Setembro de 2007 22:51

Já cantavam Seu Jorge, Marcelo Yuca e Wilson Capellette, “a carne mais barata do mercado é a carne negra”. Apesar de a belíssima música expor o racismo estrutural na sociedade, a afirmação não está completa. A carne do negro favelado e marginalizado não tem qualquer valor. Se tivesse, o Estado não teria massacrado dezenove pessoas no Complexo do Alemão, no dia 27 de junho. Já se contabiliza, em decorrência das operações policias, cerca de cinqüenta mortos e oitenta feridos. O Estado enraizou a prática de tratar os pobres como criminosos e institucionalizou a pena de morte. Junto com os movimentos de defesa dos direitos humanos, nosso mandato se opõe a esta política de (in)segurança pública e exige mudanças imediatas. Acompanhamos de perto todas as ações relacionadas ao Morro do Alemão, em reuniões periódicas com moradores da área.

As operações no Complexo do Alemão foram caracterizadas por intervenções desastrosas e pelo desrespeito. O Estado, como sempre, não está presente no Alemão com serviços essenciais, mas com a força policial. As favelas do Complexo estiveram, por mais de dois meses, em estado de sítio. Escolas, comércios e o direito de ir e vir estão sendo negados. A Secretaria de Segurança alega que a ação pretendia estabelecer a presença do Estado dentro da comunidade. No entanto, no dia seguinte à sangrenta operação, não se via nenhum policial ou outro agente do Estado no local. O que se via era destruição, dor, sangue pelas ruas, casas destruídas, comércio saqueado e quilos de projéteis pelo chão.

Os responsáveis por esta tragédia fazem acusações absurdas. Acusam nosso mandato, juntamente com os vários setores organizados da sociedade civil que acompanharam e criticaram a operação do Estado, inclusive a Comissão de Direitos Humanos da OAB – que teve seu presidente exonerado dias depois - de ser influenciado pelo tráfico, numa óbvia tentativa de invalidar nossas ações e as ações destas entidades. Nesse sentido, as declarações do Secretário de Segurança e do Chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, publicadas nos meios de comunicação, deixaram claro que a lógica do governo estadual em criminalizar a pobreza se estendeu às organizações de direitos humanos e movimentos sociais.

Ao sugerir que as organizações foram manipuladas pelo tráfico, a Secretaria tentou deslegitimar as denúncias de dezenas de moradores sobre as violações por parte das forças policiais. Essa tática fica muito mais evidente no momento em que a análise dos laudos cadavéricos dos mortos na operação indica execuções sumárias. As organizações e movimentos sociais assinaram nota pública – que nenhum jornal da grande mídia publicou - reafirmando o posicionamento contrário à política de segurança pública em curso no Rio de Janeiro. As entidades também lançaram nota de repúdio à exoneração de João Tancredo, então presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB.

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