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Oligarquias brasileiras buscam isolar e criminalizar movimentos sociais. O objetivo é evitar atualização de parâmetros que mostrem a baixa eficiência do latifúndio.
Gilberto Maringoni
Há um ataque orquestrado contra os movimentos populares em nosso país. Sua face mais evidente tem sido as diversas tentativas de criminalização dos movimentos sociais que lutam pela democratização das propriedades rurais. Na mira da direita brasileira, estão o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST) e o Movimento Terra e Liberdade (MTL). Todos têm sido vítimas nos últimos meses de ataques que vão de ações judiciais, cercos policiais, intimidações armadas, expulsão de acampamentos, prisões e até assasinatos. O ápice se dá agora com a instalação da chamada CPI do MST no Congresso Nacional. A escalada reacionária tenta institucionalizar as agressões, através do uso incontido dos grandes meios de comunicação, com ações orquestradas envolvendo a Justiça e as polícias militares. O melhor exemplo se deu em setembro último, quando as grandes redes de televisão exibiram seguidas vezes, em horário nobre, imagens da ocupação realizada por integrantes do MST em uma área supostamente de propriedade do Sucocítrico Cutrale, no interior de São Paulo. As reportagens, em tom de julgamentos sumários, classificaram a ação como ato criminoso de vandalismo. Para a grande mídia, vale a máxima atribuída a Joseph Goebbels (1897-1945), o chefe de propaganda do Partido Nazista: uma mentira repetida mil vezes vira verdade. Para montar seu teatro, a Rede Globo e suas congêneres deixaram de informar que a titularidade das terras da Cutrale é contestada pelo Incra e pela Justiça. Parte delas é formada por uma área pública de 10 mil hectares e 15 mil são terras improdutivas, passíveis de desapropriação para fins de reforma agrária. A concentração fundiária no Brasil aumentou nos últimos dez anos, de acordo com o Censo Agrário do IBGE. A área ocupada pelos estabelecimentos rurais maiores do que mil hectares concentra mais de 43% do espaço total, enquanto as propriedades com menos de 10 hectares ocupam menos de 2,7%.
Índices de produtividade Há dois objetivos por trás da campanha desinformativa. O primeiro é impedir a revisão dos índices de produtividade agrícola. Os parâmetros atuais foram delineados a partir do censo agropecuário de 1975. De acordo com eles, boa parte das imensas propriedades brasileiras cumpre plenamente sua função social e econômica. No entanto, caso os índices sejam revistos – levando-se em conta os avanços tecnológicos das últimas décadas – a situação muda de figura. A revisão mostraria que a produtividade é baixa. Boa parte das grandes propriedades não é tão produtiva quanto seus donos alegam. Elas estariam, assim, disponíveis para a reforma agrária. O segundo objetivo da direita é criar condições políticas para um ataque frontal ao MST e a outros movimentos de luta pela terra. A tática é convocar uma CPI no Congresso Nacional, que justifique pautas na imprensa de todo o país e culmine com uma ofensiva militar de amplo espectro. Ou seja, o foco do debate, ao invés de estar centrado na extrema concentração fundiária do país, passaria a ser o das supostas ilegalidades cometidas pelo MST e congêneres. Com isso, estaria desmoralizada a luta pela reforma agrária e acabaria por se impor um modelo de agronegócio exportador e predador do meio ambiente. No entanto, a história não caminha nos estreitos trilhos desejados pela elite. A perspectiva de uma derrota eleitoral das classes dominantes, aninhadas na coligação PSDB-DEM, mostra que o isolamento social está do outro lado. A CPI não tem terreno para prosperar.
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