|
O artigo “Avançar no debate programático”, publicado em nossa segunda edição do Página 50, não foi suficiente, ao meu entender, para apresentar a idéia central de minha tese. Por esta razão, volto ao tema. É de Leonel Brizola a afirmativa que “programa não ganha eleição”, para a qual, em boa medida, dou razão. Entretanto, vale perguntar: faz sentido um partido socialista travar uma disputa eleitoral desprovido de programa? Um partido socialista pode apresentar-se ao eleitorado munido apenas de estratégia e através de uma retórica política? É evidente que não.
É sabido que a forma pela qual funciona a sociedade capitalista engendra as condições fundamentais para a burguesia definir-se e reproduzir-se como classe dominante. A própria dinâmica do capitalismo produz uma espiral viciosa: as condições fundamentais geram a dominação burguesa e a burguesia, por sua vez, trata de preservá-las para manter-se dominante. Ao nos apresentarmos com idéias distintas da classe dominante – e elas devem ser distintas -, soamos estranhos ao pensamento reinante e, por essa razão, nossas idéias tendem a ser incompreensíveis e até mesmo rejeitadas. Isso ocorre porque “as idéias dominantes são as da classe dominante” (Karl Marx), ou seja, o pensamento comum do povo em geral é um amálgama composto pelos valores e os modos de viver formados e adquiridos na sociedade burguesa, portanto, predominantemente burgueses. Diante disso, nos colocamos a questão: como romper este bloqueio às nossas idéias e propostas? Estejamos cientes, desde já, que o capitalismo está no plano da realidade enquanto o socialismo ainda pertence ao plano da idealidade e que é nosso o desafio de estabelecer cruzamentos entre o plano real e o ideal. Outra consideração necessária a frisar, para não gerar falsas expectativas, é a de que uma campanha eleitoral, nos marcos da sociedade burguesa, não desconstruirá, por si só, o pensamento burguês reinante.
|