Tropeçando na própria cauda PDF Imprimir E-mail
Escrito por Milton Temer   
Seg, 03 de Abril de 2006 21:00

Que vários de seus quadros dirigentes já haviam se tornado delinqüentes de colarinho branco, a parte sadia eventualmente ainda existente no Partido dos Trabalhadores não duvidava mais. Antes mesmo do estouro de denúncias que começaram em Valdomiro Diniz, e terminaram naquele misto de bordel privado e escritório de negócios ilegais que os amigos do ministro Palocci mantinham à beira do Lago Sul, restaurantes luxuosos de Brasília eram cenários para ostensivos charutos e ternos de grife, que burocratas partidários ostentavam sem salário declarado compatível.

Que vários de seus líderes de tempos idos na luta pela ética na política, e pela radical transformação das injustas estruturas sociais e econômicas do País, haviam se transformados em capatazes do grande capital, também estava começando a ficar difícil de não reconhecer. O lucro obscenamente crescente dos banqueiros, simultâneo ao decréscimo não menos obsceno da participação desse poderoso segmento social no recolhimento-recorde de impostos, não deixava ninguém minimamente atento e bem intencionado dizer que não sabia a quem este governo realmente sempre serviu.

O inesperado é que, para além de traidores e marginais, os quase chefes absolutos de tal patota pudessem ser tão trapalhões. Capazes de tantas estultices.

Comecemos pelo outrora blindado ministro da Fazenda, hoje transformado em alvo de encarceramento por parte de qualquer juiz de primeira instância. Estava institucionalmente acobertado. Não necessitava sequer dos parlamentares da base governista, porque eram os mais radicais oposicionistas de direita que o protegiam. O que é fácil de compreender, pela política econômica de que era porta-voz, mais radicalmente conservadora do que a por eles executada durante o mandarinato de FHC.

Bastava não se mexer, e continuar exibindo aquele ar distante de matuto esperto. Nenhuma denúncia o alcançaria, mesmo que eivada de indícios incontestáveis.

Mas por conta do depoimento de um caseiro, que se limitaria a repetir o que todo o mundo já sabia quanto à sua frequência na tal casa do Lago, provocou um terremoto no Planalto. Para além de fornecer argumentos de peso a quem já o via envolvido com o lobby dos bingueiros e operadores de lotecas; para além de mostrar a até então oculta vocação autoritária de usar o aparelho do Estado em benefício próprio, revelou detalhes da própria vida privada que ninguém, dos que o investigavam, pretendia trazer à tona. Perdeu o cargo e desmoralizou-se.

Outro exemplo é o deste bizarro Paulo Okamoto, a quem o Supremo Tribunal Federal concedeu inexplicável hábeas corpus para que não se visse obrigado a acareação com Paulo de Tarso Venceslau, autor de denúncias sérias contra suas atividades financeiras pretéritas. Para se escafeder de um interrogatório em vôo solo, obrigou a secretária a mentir, inventando uma ausência que lhe permitisse não receber intimação judicial para comparecimento à CPI dos bingos. Mas não se deu ao trabalho de dar um tempo. Imediatamente iniciou andanças pelos corredores da instituição que preside com salário majestoso, o que produziu um constrangedor flagrante de mentira. Ou de covardia, pela situação delicada que gerou para a própria secretária. Estava lá, escondido.

Uma situação difícil se viu, assim, e por culpa do principal interessado em esfriá-la, transformada em geradora de desdobramentos comprometedores, com sobras para o próprio presidente Luis Inácio.

Não vamos relembrar aqui as imagens macabras da “dança da pizza”. Nem a arapongada explícita da líder petista no Senado. Vamos a um episódio, que não teve a merecida divulgação. Lembram-se do Gushiken? Aquele que o presidente Luis Inácio, tendo em vista relações íntimas de longa data, resolveu esconder num gabinete do Planalto depois de mil lambanças na Secom? Pois é. Certo de que seria indiciado pela CPI dos Correios, não esperou a divulgação do relatório para produzir uma revista com capa a cores e papel de primeiríssima qualidade, com contradita ao deputado Serraglio. Ineficaz. Por falta de confiança em sua bancada partidária, na tarefa de defendê-lo, permitiu uma nova especulação. Que equipe editou o fascículo? Qual a tiragem? Quem desembolsou o despendido na empreitada?

Será possível que o presidente Luis Inácio seja um competente líder, moralmente inatacável, na medida em que, com algumas exceções, só se rodeie de delinqüentes incompetentes e autoritários?

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